
Há materiais que revestem um espaço e outros que mudam a maneira como ele é percebido. Para Sig Bergamin, o tecido pertence claramente ao segundo grupo. Ele coleciona exemplares há décadas, traz referências de viagens sem saber necessariamente onde irá usá-las e admite: muitas vezes, parte do tecido antes mesmo de pensar na arquitetura.
Ao lado de Murilo Lomas, esse repertório ganhou outro contraponto – geometrias mais precisas, novas escalas, uma leitura de outra geração. Na Entreposto, onde os dois desenvolveram recentemente a coleção Tramas, conversamos sobre aquilo que o tecido constrói para além da imagem: luz, tato, intimidade, memória e, sobretudo, identidade.
Existe algo que um tecido consegue fazer por um ambiente que nenhum outro material consegue?
Sig Bergamin – Ele transforma completamente um ambiente. Você pode usar e abusar e conseguir efeitos muito diferentes. Olhe esta sala: há tantas padronagens que você quase não percebe onde um espaço termina e o outro começa. O tecido muda a própria percepção do espaço.
Murilo Lomas – E existe o tato. Quando sento em um sofá, tenho mania de passar a mão na almofada, no estofado. Essa relação física é muito forte. Há também a luz: dependendo do tecido, você pode tornar um ambiente mais dramático e introspectivo ou mais fresco e luminoso. Ele não entra apenas como decoração; participa da arquitetura.

Sig, você costuma partir da arquitetura para escolher os tecidos ou o tecido pode organizar o projeto?
Sig – Eu parto do tecido. Sempre tive mania de tecido. Viajava para a Índia e voltava com malas e malas sem saber onde iria usar aquilo. Tenho tecidos antigos, documentos, referências dos séculos XVII e XVIII, combinações de cores que ninguém imagina – roxo com turquesa, por exemplo. Guardo porque sei que um dia aquele tecido vai encontrar seu lugar. Muitas vezes, a arquitetura vem depois.
Vocês pertencem a gerações diferentes. O que um trouxe para o olhar do outro?
Murilo – Nosso olhar é muito parecido, apesar da diferença de geração. Talvez eu entre mais com as formas e a geometria, enquanto o Sig traz combinações de cores muito menos óbvias. Mas o maior aprendizado com ele foi a ousadia – e entender que não existe um certo e um errado absoluto. A casa precisa interpretar quem mora ali, não impor uma ideia pronta de como se deve morar.
Sig – E o olhar do Murilo também faz as coisas mudarem. Às vezes, uma forma que ele propõe pede outro tecido, outra solução. O projeto vai amadurecendo nessa troca.
Na Tramas, coleção de 18 tecidos criada por vocês com a Entreposto, houve uma inversão: vocês deixaram de escolher tecidos para um projeto e passaram a criar tecidos para espaços que não conhecem. Como foi trabalhar com esse destino em aberto?
Murilo – A coleção nasceu de muitas referências que fomos juntando como um quebra-cabeça: África, Índia, viagens, cores, formas, texturas. E é muito interessante criar um produto e deixá-lo livre para que outras pessoas interpretem. Estamos curiosos para ver como esses tecidos serão usados. Não existe uma única leitura correta.
Sig – O briefing era não ter medo. As tramas são diferentes entre si, mas conversam. Não queríamos uma coleção temática, em que tudo obedecesse à mesma fórmula. É uma coleção livre. Você mistura, brinca, descobre. É aí que aparece o que eu chamo de borogodó: a originalidade.

E o que faz um tecido permanecer interessante depois que a novidade passa?
Sig – Eu gosto quando o tempo aparece. Não vejo problema se o sol desbotou um pouco um tecido. Uma sala vivida tem história. Não estou falando de algo sujo ou rasgado, mas das marcas da vida. Não entendo essa obsessão por substituir um tecido antigo exatamente pelo mesmo. Se você mudou, por que a casa deveria continuar igual?
Murilo – A casa reflete o momento que você está vivendo. Se fizermos um apartamento hoje e outro daqui a cinco anos, provavelmente serão diferentes porque nós também teremos mudado: viajamos, vemos outras coisas, gostamos de outras coisas. O tecido acompanha isso. A questão não é ele durar para sempre. É continuar fazendo sentido enquanto aquela casa ainda representa você.
Sem marca, sem preço e sem assinatura: o que faz um tecido ser realmente excepcional?
Sig – Ser diferente. Não repetir a mesmice.
Mônica Barbosa
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